quinta-feira, 22 de Outubro de 2009



Dou-me a ti,
eu e os meus dias amor,
fingindo que não te quero enquanto te procuro.
Tu sabes que tenho deserto o jardim onde,
outrora,
passeavam de mãos dadas dois corações borbulhantes de desejo
saciando sonhos no cais de todas as noites,
alimentando com beijos aguçados,
pequenas e incógnitas chamas
despontando no caudal fervente da nossa carne.

Todos os dias eu dou te a ti amor,
procurando te em cada passo,
em cada esquina,
em cada rua,
fingindo que te afasto,
e que te fujo,
rindo dos amantes,
das frases tolas...
quando tudo é saudade apenas...

quarta-feira, 21 de Outubro de 2009

Rascunho

Deveras errante resumo a vida de fio a pavio,
enxagues memorias baloiçam irrequietas
na varanda oculta das coisas sem nome,
das palavras decrepitas de que ainda se vestem
sumidos bramidos de agonia...
Nunca este mar foi uma só onda
nem tão branda tempestade houve outro dia.

Estou certamente distante,
releio rascunhos,
páginas rasgadas.
Ínfimos tudos,
pequenos nadas,
revolvendo batalhas e uivos de dor,
sabres cravados á traiçao...
Creio que nunca fui tão infeliz
nem tao indiferente á escuridão

sábado, 29 de Agosto de 2009

Mysteries (Beth Gibbons)

Vida...











...fugaz a vida...este voo de pássaro migrante sem asas,
sem destino e á mercê dele.
Antíteses de um fado sem compasso,
de pautas escritas na aleatoriedade dos dias,
nas geometrias maestras do tempo e das circunstâncias.

Fugaz a terra a terra,
o oxigénio,
a matéria que somos e na qual nos transformamos
como searas ao vento guloso,
como pontos negros nos asfalto espiral da galáxia
gravitando perigosamente em volta do abismo das sensações,
das emoções,
na corda bamba,
no trapézio

Fugaz o malabarismo,
tais voos e a vida,
as horas,
os anos,
dia a dia
século a século...!

Ah...!
mas se há vida,
se ainda há vida...VIVE!
Tudo é fugaz...
Para que pressa?
Passaro sem asas...
VOA!
( Mesmo que não tires os pés do chão!)

quarta-feira, 19 de Agosto de 2009

Retrato á alma

quarta-feira, 15 de Julho de 2009


Mostra-me as cores do arco-íris
no voo picado de um breve beijo eterno.
Nada mais te peço que essa partida e essa chegada.
Nada mais quero que essa meta e essa viagem
e um copo de vinho a embriagar-nos os sentidos.
Dança comigo o tango improvisado,
a voluptia escarlate pulsando do meu regaço
e ensina-me os passos tontos sem latitude,
o abrupto rodopio dos corpos.

Dialogos mudos...
Nada de palavras...
Um monologo a dois
que a carne sara lenta
e o tempo está adormecido...

Quero nada mais que um minuto,
um beijo,
outro fôlego
e brincar ao faz-de-conta,
á cabra cega,
ao toque sem rumo,
ao tacto sem direcção,
Vaguear na rua de um país qualquer,
provar o sol,
a acidez insípida da chuva e,
de mãos dadas,
ainda que mutilada a minha voz,
poder contar-te baixinho
sobre esta certeza de que te amo!

sábado, 11 de Julho de 2009

Versos a Deus

Escrevo versos a Deus
deste inferno em que vivo
onde ha crianças esquecidas
á procura de abrigo
sobre o céu estrelado
e os braços do luar
a infância perdida
na procura de um lar.
Um tecto...
Um afecto...
Ninguem pára nem repara
e a porta fecha em vez de abrir,
escrevo versos deste inferno com as lagrimas a cair!

Vejo a fome e a fartura
caminhando de mãos dadas
bocas famintas,palavras sucintas
a inanicão silenciada e
os rostos sem emocão,
clamando por piedade
numa unica fatia de pão.
Escrevo versos a deus deste mundo sem coracao...

Onde há balas perdidas,
mulheres violadas,
genocidios sangrentos,
vidas roubadas
no cano de uma espingarda,
na ponta de uma faca fria,
a maldade sem tréguas,
a guerra vazia
e mora ao nosso lado
a ambicão desmedida
por bens materiais,
que importam as injustiças cometidas,
o sofrimento dos demais?

Escrevo lamentos sentidos
Escrevo lamentos a Deus
deste inferno inaudito
ás portas do céu...

Já não sei...

Já não sei das horas,não tenho tempo
e os relógios pendem abandonados das paredes cálidas
como folhas mortas ao vento de outubro,
como gotas de chuva nos beirais dos meus olhos sem horizonte.

Calendários raros...
Dias incertos
condensados nas incontáveis folhas virgens
de um diário nunca antes escrito
e eu,
sem saber dos dias,
vejo partir em cada comboio o meu sonho
para parte incerta
fico deserta sem saber de mim,
imprimo ao acordes da minha guitarra,
elegias inenarraveis deste meu eterno fim

Pois já não sei do tempo
e o tempo é tão vital
Mas quem não sentiu já na vida,
a morte tão viva afinal?


Rara a tua tez rosada á luz trémula das velas,
tão rara quanto as tuas mãos impacientes
e o sussurro rouco de um velho rádio
á mesa posta do nosso amor.

Tão poucas vezes senti em ti fome de afecto,
de beijos sentidos
e os teus cinco sentidos á espreita
na esquina do teu coração fechado
fechando em meus poros desejos inconfessáveis.

Amiúde, foram sangrentas as nossas batalhas
e o sangue fresco derramado por dentro,
a guerra incessante, sem vencedor ou vencido,
a luxuria marginal,
a repressão decrepita das minhas vontades ás tuas,
por isso,
raro sei esse teu súbito desejo.

Porquê?
Porquê nómadas as tuas mãos ao meu corpo imberbe que ferve?
Porque agora, a esta hora tão tardia nas ruas sem gente e a gente vazia?

Acorrentas a teu corpo o meu coração
com a devassidão que te atinge...
Tão rara essa paixão..
Mas apressa-te,antes que a magia finde!!

Depois de ti

Á noite,
no portal da minha porta,
fico a esperar.
Gela-me o vento e nem o sinto.
Sabes...
Ainda pressinto
que voltas para me abraçar

Parece-me ouvir teus passos
Ver a sombra dos teus braços
como fazes ao despedir
E agora a noite é fria,
sopra mais a ventania,
começa a chuva a cair.

Ainda á pouco foste embora
e ja a saudade mora
no lugar que tu deixaste
E entao eu fico a cismar
e finalmente a sonhar,
sentindo que tu voltaste!


1999

domingo, 10 de Maio de 2009

A woman left lonely- Janis Joplin





A woman left lonely will soon grow tired of waiting,
She’ll do crazy things, yeah, on lonely occasions.
A simple conversation for the new men now and again
Makes a touchy situation when a good face come into your head.
And when she gets lonely, she’s thinking ‘bout her man,
She knows he’s taking her for granted, yeah yeah,
Honey, she doesn’t understand, no no no no!

Well, the fevers of the night, they burn an unloved woman
Yeah, those red-hot flames try to push old love aside.
A woman left lonely, she’s the victim of her man, yes she is.
When he can’t keep up his own way, good Lord,
She’s got to do the best that she can, yeah!
A woman left lonely, Lord, that lonely girl,
Lord, Lord, Lord!

sexta-feira, 8 de Maio de 2009

Lembro-me dos dias puros
em que a luz ludibriava os teus caracóis loiros e,
com eles,
bailava graciosamente na brisa quieta da Primavera,
aquilo que era já cheiro a mar salgado e gargalhadas soltas
á sombra do sol escaldante de Agosto.
Lembro-me dessa dança mágica
Sem tempo, sem medo, sem dor
e da candura dos teus olhos claros,
como águas cristalinas cheias de vida ainda curta
como a idade dos nossos dias.

Sei que fomos felizes ao cantarolar de mãos dadas
juras eternas á amizade,
tão óbvia e simples como as letras do alfabeto,
tão inocentes quanto a nossa visão do amor,
sempre doce como chocolate
onde a eternidade se personificava num beijo só.

Lembro me que carregávamos sonhos maiores que o sol,
enquanto brincávamos ao faz-de-conta, sentadas á porta
de um fim da tarde, depois da escola,
e de todas as pequenas coisas que nos preenchiam os dias
quando a eles se podia ainda dar esse nome.

Somos ainda crianças, eu sei!
Mas já tão mais crescidas e tão mais pequenas
Diminuídas á cadencia dos anos.
Adultos,serpenteando entre as pedras do caminho
Onde seremos sempre aquelas crianças peregrinas
Carregando sonhos maiores que o sol
agora mais pequeno que o nosso mundo
Mas, que ainda assim,
Será sempre lembrança quente nos gélidos dias de tempestade
E nos trará a memória a sentida saudade de uma outra infância...

"O homem de bem,no meio dos malvados, resvala sempre!
Nós estamos acostumados a associarmos-nos ao mais forte, a pisar quem está no chão e a julgar segundo as circunstâncias. "

Hugo Foscolo

quinta-feira, 7 de Maio de 2009

Velhice

Não sei como será
Nem sei se me espera
O fim da primavera
A era dos dias transbordantes de um futuro sem idade
Nem sei se virá ao meu tempo
O tempo longínquo da mocidade

Hoje vi a alma da velhice
Na palidez de corpos tortos
De seres vivos já meio mortos
Vagueantes na bruma de uma casa escura
Que cheirava a nostalgia
Da amarga vida fugidia
De uma saudade sem cura

E fitei, como se o mundo fosse invisível
Os rostos pálidos, sem expressão
As rugas de abandono,
Cravadas sem piedade
No indecoroso corpo da solidão
Que das memórias pouco resta
E os afectos são uma miragem
Carcaças humanas, história antigas
Votadas a um esquecimento selvagem

Não sei como será
Nem sei se me espera
O fim da primavera
A era da dor sem fim
Nem sei se me calhará a mim
A espera lenta pela morte
Mas a velhice,a ser assim
Não é velhice digna,
Nem é vida, nem é sorte!



sábado, 2 de Maio de 2009


Por entre a nesga brumosa da manhã
Por entre os lençóis de uma cama vazia
Renasce em mim uma vontade afã
De matar com prazer a nostalgia

Dou á luxuria um corpo esquecido
E ao esquecimento um corpo cansado
Encenando um monologo sem fim
No palco vazio de mim
Sem dialogo previamente ensaiado

Bebo sofregamente cada gota de prazer
Bebendo o sabor amargo do teu suor
Desse gemido constante que me faz tremer
á poesia de um corpo que sei de cor

Torno me chama inabalável e ardente
Incendiando-me no fogo da sensualidade
Numa cama fria,amarga,vazia
Onde o corpo se rende á vontade
Onde a saudade é princesa e rainha
E eu rastejo por deliberada escravidão
De ver num cigarro apagado
A imagem de um momento imaginado
Da mais ousada e extrema paixão!